Tarso Genro: uma fala polêmica?
Apenas algumas frases comuns, e então headlines nos principais veículos de comunicação. A reação dos “grandes” da mídia ao posicionamento de Tarso Genro, ao falar sobre drogas nesta quarta-feira durante a aula magna proferida por este no Salão de Atos da Reitoria da UFRGS, fez com que repórteres/editores(as)/e jornalistas relatassem que o público presente estava perplexo, ou surpreso, & etc.
A pergunta é: há motivos para surpresa? Há motivos para perplexidade? Nós achamos que não. Senão, vejamos…
Não há motivo para surpresa quando pensamos na postura ética e coerente do atual governador do RS em uma de suas últimas decisões enquanto ex-ministro da Justiça, que foi justamente a de convidar a Secretaria Nacional de Políticas Sobre Drogas (SENAD) a sair do âmbito do Gabinete de Segurança Institucional (antiga Casa Militar da Presidência da República), e trazê-la para o âmbito mais pertinente, da Justiça.
Claro que, devido à cultura medieval que ainda impera em alguns espaços deliberativos do país, o então secretário Pedro Abramovay acabou sendo defenestrado, após dizer que era necessária a revisão das políticas atuais sobre drogas, principalmente no sentido da diferenciação entre as drogas e na diferenciação entre as figuras de pessoas que vendem e pessoas que usam.
Então, que o atual governador Tarso Genro, ex-ministro da Justiça, tenha defendido uma política mais rigorosa na regulamentação das drogas, ou seja, uma política que diferencie entre as diferentes drogas tornadas ilícitas, não deveria causar surpresa alguma.
Já a outra palavra que apareceu bastante, a “perplexidade”, talvez possa ser atribuída ao fato de que Tarso, ao defender esta política mais rigorosa, tenha dado exemplos práticos sobre diferenciações entre as drogas. Ele disse que nunca teria visto alguém matar outra pessoa “por causa de maconha”. Não achamos que o exemplo tenha sido o mais feliz – afinal, pessoas não matam unicamente motivadas pelo consumo de uma droga; fosse assim, toda pessoa que usa crack seria uma assassina em potencial, o que (pra quem conhece a realidade de perto, como nós por exemplo) não é uma verdade absoluta. As exceções não criam regras, embora há muito mais casos de violência física envolvendo pessoas sob efeito de álcool do que sob efeito de maconha. Tá aí o Wianey Carlet que (querendo ou não) não nos deixa mentir.
O mesmo podemos dizer do policial que mata um adolescente à queima-roupa porque este estava portando drogas ilícitas e teria “resistido” à abordagem. Neste caso (que é corriqueiro o bastante pra não dizermos que se tratam de eventos isolados), não podemos dizer que o policial também tenha virado um assassino só por causa da maconha (ou cocaína, etc). Seres humanos, definitivamente, não são robôs esperando por drogas que os deem comandos.
Mas seres humanos entram em contato com as drogas e têm com elas várias relações, não somente de vício, doenças ou apocalipses. Milhares de pessoas marcham no mundo todo comunicando à sociedade que a prevenção, pra funcionar, deve ser menos hipócrita: deve reconhecer que a maconha também pode ter um delicioso aroma, pra muitas pessoas.
Como diria o poeta Arnaldo Antunes: é bom pra quem gosta. E os gestores que entendem estas nuances com certeza estão mais preparados para exercer suas funções.













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